HISTÓRIA

OPERAÇÃO OUTONO

O General Humberto Delgado (1906-1965), principal opositor do ditador português António de Oliveira Salazar, foi assassinado pela polícia política do regime - a PIDE. «Operação Outono» foi o nome de código que recebeu a operação destinada ao seu aniquilamento.

Datava de 1958 o epíteto de "General Sem Medo", com que ficou conhecido Humberto Delgado depois de proferir a célebre frase "obviamente demito-o", a respeito de Salazar. Era então candidato à Presidência da República, contra o candidato do regime, Almirante Américo Tomás. A vaga de adesão popular à figura carismática de Humberto Delgado fez estremecer a ditadura, mas os resultados das Eleições estavam ditados à partida: 75,8% para o Almirante e 23,4% para o General. (1) Humberto Delgado prosseguiu o seu combate no exílio, prometendo aos portugueses que voltaria. E assim fez, clandestinamente, na passagem de ano de 1961 para 1962, a fim de chefiar a malograda Revolta de Beja. (2) Exibiu depois na imprensa mundial os disfarces com que ludibriou a PIDE na fronteira, bem como os carimbos no seu passaporte. Uma nova equipa entrou em ação, no topo da hierarquia da polícia política, para garantir que o General não voltaria a humilhar a PIDE, e muito menos a tentar revoluções.

Foi em meados de 1962 que teve então início a «Operação Outono», sob o impulso de uma personagem maquiavélica, Mário de Carvalho, que se fazia passar por exilado político em Roma e conquistou a confiança de Humberto Delgado. (3) Dois anos e meio mais tarde, este encontrava-se exilado na Argélia, a convite do Presidente da jovem nação independente, Ahmed Ben Bella. Foi no seguimento da sua rutura com a Frente Patriótica de Libertação Nacional, de que era Presidente, (4) que o General decidiu em definitivo apostar em Mário de Carvalho e nos seus alegados contactos revolucionários. Em 27 de Dezembro de 1964, no Hotel Caumartin, em Paris, foi-lhe apresentado o "Dr. Castro e Sousa", que era na realidade um sub-inspetor da PIDE, Ernesto Lopes Ramos, fazendo-se passar por jovem advogado antifascista e elemento de ligação ao Exército. Durante essa reunião, foi combinado um local e uma data: Badajoz, 13 de Fevereiro de 1965. (5)

Na tarde deste dia, o General Humberto Delgado aguardava na estação de caminhos-de-ferro da referida cidade espanhola, convencido que ia reunir-se com oficiais portugueses dispostos a iniciar a revolta armada para derrubar a ditadura de Salazar. Sem o saber, ia ao encontro de uma brigada da PIDE, chefiada pelo inspetor Rosa Casaco e composta por Casimiro Monteiro, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos. Este último convidou Humberto Delgado e Arajaryr Campos - a sua secretária brasileira e indefetível companheira no exílio - a entrarem num Renault Caravelle para que os conduzisse até ao local onde estariam à sua espera um coronel do Exército e dois majores. Os "militares" preferiam um encontro mais discreto, à beira da estrada, para os lados de Olivença. Por ironia do destino, foi Arajaryr Campos quem primeiro avistou o Citroën da PIDE, alcandorado no cimo de um pequeno cerro, numa propriedade chamada Los Almerines. O carro tomou o caminho de cabras que permitia lá chegar e Humberto Delgado, saindo da viatura, perguntou ao "Dr. Castro e Sousa" qual dos três homens era o coronel. Aproximava-se o clímax da Operação Outono. (6)

Os corpos de Humberto Delgado e Arajaryr Campos foram enterrados a cerca de 30 km do local do crime, perto da aldeia fronteiriça de Villanueva del Fresno, mas as águas pluviais e outros agentes naturais, como raposas, lobos ou cães assilvestrados, contribuíram para a exumação parcial (e mutilação) dos cadáveres, que vieram a ser descobertos em 24 de Abril de 1965 por dois rapazes da aldeia que andavam à caça de pássaros. (7) O governo de Franco entrou em rota de colisão com a estratégia salazarista de encobrimento do crime e deu início a rigorosas investigações judiciais para o apuramento da verdade, desde as perícias médico-legais até à identificação dos quatro suspeitos, para os quais chegou a haver um mandado de captura. (8) Sucede que os seus nomes eram falsos, bem como as matrículas das viaturas, pelo que o processo foi arquivado. Só após o "25 de Abril" de 1974 é que o chefe do posto da PIDE da fronteira de São Leonardo revelou o nome dos agentes que a tinham atravessado nove anos antes. O processo judicial português colocaria no banco dos réus os agentes Ernesto Lopes Ramos e Agostinho Tienza, mas não Rosa Casaco, nem Casimiro Monteiro, que foram julgados à revelia por se encontrarem fugidos. No tocante à hierarquia superior da PIDE, estiveram presentes a julgamento o diretor, Fernando Silva Pais, e o inspetor Álvaro Pereira de Carvalho, mas não o subdiretor Agostinho Barbieri Cardoso, também fugido à justiça. Iniciado em 9 de Outubro de 1978 no Tribunal de Santa Clara, em Lisboa, o julgamento durou até 27 de Julho de 1981. O acórdão dos juízes considerou que o objetivo da «Operação Outono» era apenas raptar, e não matar Humberto Delgado, pelo que foram ilibados todos os acusados, com exceção do autor material do crime, Casimiro Monteiro. (9)

O "Caso Delgado" perdura até aos dias de hoje. O julgamento de Santa Clara foi denunciado como uma «farsa» pelo biógrafo e neto de Humberto Delgado, Frederico Delgado Rosa, no livro Humberto Delgado. Biografia do General Sem Medo (Esfera dos Livros, 2008, 2012). Trata-se do livro que serviu de inspiração ao argumento do filme Operação Outono, de Bruno de Almeida, enquanto longa metragem de ficção baseada em factos verídicos. O livro e o filme procuram demonstrar que os juízes do Tribunal de Santa Clara deturparam de forma grosseira e deliberada a verdade material do crime, por motivos políticos, no sentido de ilibar postumamente a figura de Salazar. (10)

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(1) Iva Delgado, Carlos Pacheco, Telmo Faria (coord.), Humberto Delgado. As Eleições de 58, 1998, Lisboa, Veja.
(2) F. Delgado Rosa 2008; Humberto Delgado, The Memoirs of General Delgado, 1964, Londres, Cassell; Arajaryr Campos, Uma Brasileira contra Salazar, 2005, Lisboa, Livros Horizonte.
(3) F. Delgado Rosa 2008; Manuel Garcia, Lourdes Maurício, O Caso Delgado. Autópsia da “Operação Outono”, 1977, Lisboa, Edições Jornal Expresso; Valério Ochetto, Em Prol da Verdade, 1978, Lisboa, Bertrand.
(4) Patrícia McGowan Pinheiro, Misérias do exílio. Os últimos meses de Humberto Delgado, [1979], 1998, Lisboa, Contra-Regra.
(5) / (6) / (7) F. Delgado Rosa, 2008.
(8) Juan Carlos Jiménez Redondo,Caso Humberto Delgado. Sumario del proceso penal español, 2001, Mérida, Junta de Extremadura; El Otro caso Humberto Delgado. Archivos policiales y de información, 2003, Mérida, Junta de Extremadura, Editora Regional de Extremadura.
(9) Manuel Geraldo, Memória de um processo. A Segunda morte do General Delgado, 1982, Lisboa, Edições Caso.
(10) F. Delgado Rosa, 2008.
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Site oficial Humberto Delgado